Achatar os seios e urinar em pé: o que são packer, binder e tape e como eles ajudam no bem-estar de pessoas trans

  • 29/01/2026
(Foto: Reprodução)
O que são packer, binder e tape e como eles ajudam no bem-estar de pessoas trans Na busca por se sentirem mais confortáveis com a própria imagem, alguns homens transexuais e pessoas não binárias podem recorrer a acessórios que os ajudam a se sentir mais alinhados ao gênero. É o exemplo do binder, uma faixa que ajuda a achatar os seios, e do packer, um dispositivo em forma de pênis que permite, inclusive, urinar em pé. Isso porque, no espelho, na escolha da roupa ou ao sair de casa, esses pequenos detalhes do corpo fazem diferença. As peças se tornam aliadas e ajudam a amenizar a preocupação com a forma como os seios marcam na camiseta ou com a falta de volume na calça – o que pode gerar olhares inconvenientes e, até mesmo, comentários preconceituosos. ♂️ Homens trans são pessoas que, ao nascer, foram atribuídas ao sexo biológico feminino, mas que têm a identidade de gênero masculina. Não binário é alguém que não se encaixa exclusivamente no que se compreende como "homem" ou "mulher". ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Campinas no WhatsApp Para quem usa, esses produtos são importantes mecanismos de afirmação de gênero que, além de elevar a autoestima e o amor próprio, garantem que os homens trans e pessoas transmasculinas acessem espaços públicos com mais segurança, evitando que suas identidades sejam questionadas. O g1 esteve em uma fábrica em Campinas (SP) que é uma das primeiras do país a se especializar nesses produtos. No Dia da Visibilidade Trans, a reportagem explica o que são packer, binder e tape, e como eles ajudam a alinhar aparência, a identidade e o bem-estar dessa população. 🌈 A seguir, você vai ver: O que é packer O que são binder e tape A experiência de quem usa Como usar de forma segura O que é packer? Packer dentro da cueca; peça representa pênis realístico e é usado por pessoas transmasculinas Estevão Mamédio/g1 O packer é um pênis realístico usado por homens trans e pessoas transmasculinas. Normalmente é feito em materiais flexíveis, como silicone, e apresenta diferentes cores e tamanhos. Embora possa ser usado para fins sexuais, um de seus principais objetivos é simular o volume do órgão genital. 👖 O acessório é colocado dentro da roupa íntima, geralmente em cuecas específicas para esse uso ou em cintas que o mantêm firme no lugar. Com isso, o packer pode ter as seguintes funções: Volume na cueca: o packer cria a aparência de um pênis não ereto dentro da roupa íntima. Permitindo, por exemplo, que a pessoa trans vista uma sunga e tenha o mesmo aspecto de volume que uma pessoa do sexo biológico masculino teria. Urinar em pé: alguns packers têm um canal interno que direciona o fluxo da urina. Para usar, a pessoa o posiciona sobre a uretra, garantindo que o canal esteja alinhado, e a urina sai pelo tubo de forma direcionada. Penetração: eles podem ser projetados para permitir penetração durante atividade sexual. Há modelos com espaço para uma articulação interna, que o deixa ereto, e há compatibilidade com cintas de sustentação. Prazer próprio: alguns modelos contam com ondulações posicionadas para estimular o clitóris de quem o veste. "A gente tem muitos clientes que falam: 'ah, eu vou na academia, não tenho nenhum volume ali'. Naquele momento que vai fazer o agachamento, falta um volume, fica marcando demais a região íntima. A pessoa não se sente confortável", explica Matteo Anibal, gerente da Transtore. "A mesma coisa no sexo. A pessoa pode estar saindo com alguém e gostar de ter o packer ali. Tem pessoas trans que não acham necessário, que preferem não utilizar, mas tem gente que gosta de ter algo diferente na hora da relação. Vai muito de cada pessoa". O que são binder e tape? Cueca para packer e binder são usados por pessoas transexuais; peças são fabricadas em Campinas Estevão Mamédio/g1 O binder é uma peça de vestuário usada para achatar os seios, dando uma aparência plana para o tórax. É utilizado por homens trans e pessoas não binárias que não se identificam com a presença de seios, e costuma ter os seguintes modelos: colete: com alças, com fecho regulável, indicado para pessoas com seios maiores; faixa: sem alças, com fecho regulável, indicado para pessoas com seios menores. 👕 Visualmente, o binder pode se parecer com um top justo, mas é feito com tecidos específicos para compressão. É usado por baixo da roupa, deixando as mamas menos evidentes. A tape tem uma função parecida. Trata-se de uma fita de compressão, respirável, autocolante e feita em material que se assemelha a um tecido. Ela estica os seios para os lados, deixando o peitoral mais reto. Por cobrir menos pele, pode ser uma opção para os dias quentes ou na prática de esportes. "É um produto que, normalmente, as pessoas procuram para ajudar nessa disforia [sensação de incongruência entre o corpo e a identidade com a qual se identifica]. A pessoa se sente mal com o próprio corpo, ela vai e utiliza o binder. Ela se sente melhor, ela consegue sair de casa sem ser vista como diferente", analisa Matteo. "Uma pessoa que tem barba, mas tem seio, por exemplo, os outros olham de uma forma diferente. A pessoa com binder vai se sentir mais segura, vai estar com o peitoral reto. As pessoas param de errar o pronome. Então, o binder, o tape, por exemplo, são produtos que ajudam muito na hora de sair de casa, né? A pessoa se sente mais confiante", completa. 'Vejo que tem um volume, me sinto' Denis, Theodoro e Arthur, de Campinas (SP), são homens transexuais que fazem uso de binder e packer (da esq. para dir.) Estevão Mamédio/g1 Antes de trabalhar como líder de estoque na Transtore, cargo que ocupa há cinco anos, Denis Alan Pires Nunes foi cliente. Aos 33 anos, ele lembra bem do primeiro packer que comprou e diz que o acessório é um aliado para que homens trans sejam respeitados em situações corriqueiras, como ao fazer um exercício na academia. "A gente consegue notar o olhar das pessoas. Querendo ou não, a gente não consegue passar despercebido. Na academia, principalmente, que tem os caras lá e a gente fica se sentindo desconfortável. Aí eu olho assim, vejo que tem um volume ali [do próprio packer], e me sinto. Ninguém sabe que não é de verdade", comenta. Para o Theodoro Amancio, de 30 anos, os acessórios para os seios têm sido a solução para o desconforto que sente com o corpo. "Eu tenho muita disforia. Aí eu comecei na utilização da tape e do binder, que é uma coisa que, dependendo dos locais, dos olhares das pessoas, dá um alívio. Porque [quando não uso], a pessoa olha e fala: é ou não é?", diz. "Mas assim, com o binder, eu não me sinto mais incomodado como antes. Eu não conseguia utilizar alguns tipos de roupa por essa disforia. Com esses produtos, eu já consigo me sentir leve, tranquilo, não tenho mais incômodos com a utilização de roupas", desabafa o auxiliar de produção. Antes de conseguir fazer a mastectomia, cirurgia para remoção das mamas, foram a tape e o binder que ajudaram Arthur Henrique, auxiliar de produção de 23 anos, a atravessar o dia a dia como um homem trans. Hoje ele já não usa mais esses produtos, mas faz questão de destacar a importância que eles tiveram nessa trajetória. "Foi como eu conseguia me esconder um pouco da disforia que eu senti. Era uma maneira de ter um alívio [...] Então, eu penso que para os meus, para os próximos, a continuidade desse acesso é muito importante. Foi como eu me senti bem até chegar na minha cirurgia [...] é sobre a forma que a pessoa se vê, como ela se sente, então isso é mais profundo". Como usar de forma segura? O ginecologista Davi Motta, especializado no atendimento de pessoas LGBTQIAP+, explica que, embora exerçam papel importante na saúde emocional e na autoestima das pessoas trans e não binárias, esses acessórios exigem cuidados específicos para que sejam considerados seguros. Os principais pontos de atenção estão ligados à higiene e ao tempo de uso. "Principalmente agora, na época do verão, tem muito calor. Existe muito suor ali e, com o uso prolongado, do packer, pode causar alguma dermatite por contato até por urina", explica. O médico também lembra que urinar em pé deve ser a exceção, pois a prática, a longo prazo, é desfavorável para a anatomia da pelve e pode acarretar problemas de saúde. "Pela anatomia da pelve do homem trans, é melhor urinar sentado ou semi-agachado, mas a gente entende que, por exemplo, na época de verão, nos blocos de carnaval na rua, isso é mais difícil. Se a pessoa tem o packer, ou até aqueles cones descartáveis para fazer xixi em pé, vale usar, mas com moderação". Veja outras orientações do médico para uso: Packer Usar com moderação, especialmente em situações em que a pessoa não consegue urinar sentada ou semi-agachada; Garantir boa higiene do packer após o uso, especialmente depois de urinar ou após as relações sexuais. Binder Usar por, no máximo, oito horas por dia; Não usar para dormir; Não usar tamanhos menores ou muito apertados; Dar preferência a materiais mais próximos do algodão, que são mais macios e respiráveis; Arejar a região sempre que possível e não usá-lo sujo -- se possível, ter mais de um para poder lavar enquanto usa outro; ⚠️ O uso excessivo pode causar problemas cutâneos, respiratórios, questões osteomusculares e até deformações no tórax. Tape Evitar o uso no calor; Evitar o uso prolongado; Não usar para dormir; Intercalar o uso com o binder; Após o uso, passar hidratante ou talco na pele. Motta reforça que o uso desses acessórios, idealmente, deveria ocorrer mediante acompanhamento médico. No entanto, reconhece a dificuldade que a população LGBTQIAP+ pode encontrar em acessar serviços de saúde que reconheçam suas necessidades. Mesmo assim, incentiva que essa população não deixe de cuidar da saúde. "Eu não acredito que as pessoas não queiram se cuidar. Elas só têm dificuldade para acessar esse cuidado [...] Hoje eu falo muito mais sobre a população trans. Eles são pessoas que estão interessadas em cuidar da saúde deles, mas que têm dificuldade. Não é fácil você conseguir marcar uma consulta com um médico que consiga entender a sua identidade de gênero por completo, sua sexualidade por completo, sem julgamento." De pessoas trans para pessoas trans Sediada em Campinas, no interior de São Paulo, a fábrica criada em 2017 pelo influenciador trans Stevan Queiroz atende clientes de todo o Brasil e de mais 14 países. É uma das primeiras a se especializar no bem-estar de pessoas trans no país. O objetivo, segundo o gerente Matteo Anibal, é oferecer esses produtos a preços mais acessíveis que os praticados no exterior. "A gente não tinha esses itens tão acessíveis como é hoje. Só tinha fora do país, a taxa de importação era muito alta, o dólar muito caro e, por conta disso, decidiu ele mesmo fazer um produto. Ele foi, fez o packer, costurou, fez o binder, que eram produtos que não tinha aqui no Brasil", comenta. "Ele postou isso em um grupo do Facebook para pessoas trans, onde o pessoal se ajuda, troca informações sobre cirurgia, hormonização, aspectos psicológicos... E foi lá que ele encontrou esse espaço pra poder divulgar o trabalho dele. As pessoas gostaram e perguntaram: 'você faz pra mim?'. Ele viu que era um mercado bem carente e começou a fazer", completa o gerente. Inicialmente, a venda começou como um produto artesanal. Depois, a empresa foi aberta com quatro modelos de packers. Atualmente são 27, além de binders, tapes, cuecas e cintas, vibradores, lubrificantes, entre outros. VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e Região Veja mais notícias sobre a região na página do g1 Campinas.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/01/29/achatar-os-seios-e-urinar-em-pe-o-que-sao-packer-binder-e-tape-e-como-eles-ajudam-no-bem-estar-de-pessoas-trans.ghtml


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