'Equilibrivm': as referências religiosas do novo álbum de Anitta e o que elas dizem sobre o Brasil

  • 21/04/2026
(Foto: Reprodução)
‘Equilibrivm’: veja as principais referências religiosas do novo álbum de Anitta “Nem tão enlouquecida, nem tão zen. Nem tão prepotente, nem tão baixo-astral”. É assim que Anitta define seu ideal de equilíbrio. Depois de convocar um exército de "poderosas" no Brasil e levar o reggaeton ao topo das paradas globais, a artista sintetiza seu novo momento "good vibes" em seu oitavo álbum, "Equilibrivm", lançado na última quinta-feira (16). "Ele fala sobre a pluralidade de crenças. De tudo que faz bem para a gente", diz a cantora. "Mas também tem muito funk. Fé e festa sempre foram celebradas juntas no nosso país", completou. O projeto traz referências diretas a orixás do Candomblé, pontos de Umbanda, mantras de meditação budista e símbolos ligados a rituais indígenas. O g1 conversou com especialistas em história das religiões, antropologia e cultura pop. Também ouviu diretores criativos envolvidos no projeto para entender os conceitos por trás da nova era "equilibrada" de Anitta. Confira a análise abaixo. Tipografia, capas, ilustrações A identidade visual do álbum ficou a cargo da Arado, marca mineira que se define como uma “plataforma de pesquisa e divulgação do imaginário rural brasileiro”. “Ela nos pediu aspectos que representassem as matrizes africanas, mas também o sincretismo religioso brasileiro. O álbum fala sobre a relação entre o sagrado e profano. A fé e a festa", conta Luís Matuto, diretor criativo da Arado. Identidade visual do novo álbum de Anitta, 'Equilibrivm', feita pela marca brasileira Arado. Divulgação O trabalho incluiu as artes de divulgação do disco, as capas dos singles e as ilustrações dos "lyric videos" (vídeos com as letras). Identidade visual do novo álbum de Anitta, 'Equilibrivm', feita pela marca brasileira Arado. Divulgação "Em 'Desgraça', trouxemos vários elementos do Candomblé, como as figuras do violeiro, do galo de Exu e da encruzilhada", explicou. Identidade visual da faixa "Desgraça", feita pela marca brasileira Arado. Divulgação "Já em 'Caminhador', das festas populares, como o Caboclo de Lança do Maracatu nordestino e o Bastião, figura que representa o palhaço nas Folias de Reis do Sudeste", comenta. Identidade visual da faixa "Caminhador", feita pela marca brasileira Arado. Divulgação O encontro entre a cantora e o estúdio aconteceu de forma inusitada: Anitta ganhou de presente de seu maquiador um calendário da marca com o tema "Rituais Mágicos Brasileiros", que reúne 12 ritos, práticas e saberes místicos presentes no cotidiano brasileiro, desde amuletos e proteções até sonhos e adivinhações. A partir dali, ela conheceu o trabalho da plataforma e convidou a equipe para atuar em seu mais novo projeto, que, em alguma medida, retoma o mesmo interesse do calendário: mapear a espiritualidade plural brasileira. O trabalho foi realizado em duas semanas por Matuto e mais dois designers da equipe. Clipes divididos em atos Até o momento, a única faixa do álbum a ganhar um videoclipe oficial foi "Desgraça". A produção inaugura uma "narrativa" dividida em quatro atos, que devem ganhar visuais semanalmente até o dia 7 de maio, sob os temas "Despacho", "Fé e Festa", "Deus Mãe" e "Renascimento". "A música é uma saudação a Exu, quem abre caminhos e conecta mundos. Referenciamos a figura da Pombagira como expressão de poder feminino e autonomia do desejo", explica Nídia Aranha, diretora criativa do álbum. Representação da encruzilhada, presente no clipe "Desgraça", de Anitta Divulgação "No clipe acompanhamos uma mulher que está acompanhada por essas entidades da rua que dançam, bebem e celebram com ela", complementa. Estão presentes elementos como a jogada de búzios, o galo de Exu e a própria encruzilhada, que representa o ponto de encontro entre o plano físico e o espiritual. A cenografia é feita também de máscaras do Mestre Zimar, artesão maranhense conhecido por criar figuras inspiradas nos Cazumbás, personagens lúdicos e espirituais do Bumba Meu Boi. Trechos do clipe de "Desgraça", da cantora Anitta Divulgação A coreografia foi assinada por Cassi Abranches, do Grupo Corpo, que pesquisou gestos de incorporação no Candomblé para compor a movimentação da artista e dos dançarinos. Letras e samples Por ora, o projeto possui 15 faixas. Isso porque a cantora já falou publicamente que o álbum lançado nesta semana é apenas a primeira parte. O disco tem parcerias com diversos artistas, entre eles a banda de reggae Ponto de Equilíbrio e Emanazul, dupla brasileira que define seu som como "música medicina" para "emanar boas ondas sonoras". Capa do álbum 'Equilibrivm', de Anitta Divulgação Nas letras e temáticas, muitas músicas do disco têm menções religiosas e espirituais. Confira as principais referências: Desgraça: exalta a força da Pombagira. A letra cita as "sete encruzilhadas" e "sete saias", elementos da Umbanda que simbolizam o poder feminino e a proteção nas passagens da vida. Mandinga (feat. Marina Sena): utiliza o samba "O Canto de Ossanha" (Orixá das ervas e segredos) para criar uma atmosfera de sedução. A faixa evolui de um estado de "feitiço" para um grito de liberdade contra o condicionamento patriarcal. Caminhador (feat. Liniker): através do trocadilho "Caminha, com a minha dor", cantoras celebram a jornada espiritual de quem não para de seguir, transformando cicatrizes em caminho aberto. Bemba (feat. Luedji Luna): celebra a Bahia como berço da resistência afro-brasileira. Faz referências às oferendas (comidas de santo). Ternura (feat. Melly): evoca a energia de Oxum, orixá das águas doces e mãe de Logun Edé (orixá da cantora). Deus Existe (feat. Ponto de Equilíbrio): relato pessoal sobre como a espiritualidade foi a ferramenta de Anitta para encarar as provocações da vida e buscar equilíbrio mental. Nanã (feat. Rincon Sapiência & King): baseada em "Cordeiro de Nanã" (Os Tincoãs), exalta Nanã de Baruquê, a orixá anciã que moldou a humanidade com o barro. Choka Choka (feat. Shakira): a entidade Cabocla traz o ensinamento da convivência com a natureza. faz referência ao ritual Kuarup indígena, que celebra a vida e a memória dos mortos. Meia Noite (feat. Los Brasileros): ode a Exu Mulher, onde a artista assume a voz da própria Pombagira para narrar sua atuação na noite em primeira pessoa. Ouro (feat. Emanazul): o fechamento do álbum funciona como uma meditação guiada. Utiliza mantras à deusa budista Tara. Looks e acessórios Durante sua participação no programa americano "Saturday Night Live", que foi ao ar em 11 de abril, Anitta utilizou uma espécie de "bracelete" feito de palha-da-costa trançada. O objeto é um contra-egum: um "amuleto" de proteção fundamental nas religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda. Cantora Anitta no programa americano Saturday Night Live Divulgação Sua principal função é "fechar" o corpo contra energias negativas e de eguns, termo iorubá que designa espíritos de pessoas falecidas que ainda orbitam o plano terreno. O styling dessa "nova era" da cantora está sendo assinado por André Philipe e Daniel Ueda (como no clipe de "Desgraça"). Do lado esquerdo, Anitta no clipe de "Desgraça"; do direito, imagens promocionais divulgadas do novo álbum. Divulgação Segundo Philipe, a escolha das cores é estratégica: o branco que ela usa na abertura do clipe remete às vestes dos iniciados no Candomblé. Já o vermelho, o dourado e o prata evocam a força e o comando das entidades de rua. O uso de correntes e vestidos curtos, ainda segundo eles, busca traduzir a imagem de uma mulher latina que é, ao mesmo tempo, "quente, romântica e destemida". Anitta em imagens de divulgação do seu novo projeto, Equilibrivm. Divulgação Nem primeira, nem a última Embora o movimento de Anitta chame a atenção pelo alcance que ela possui (o álbum registrou cerca de 8,2 milhões de streams nas primeiras 24 horas), ela não caminha sozinha. Para Luane Fernandes Costa, pesquisadora de sonoridades afro-indígenas e mestra em Estudos da Mídia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a música brasileira sempre foi um "arquivo vivo" dessas matrizes. "Em casas de matriarcas como Tia Ciata, percussão, canto e dança serviam tanto ao culto de orixás quanto à festa, formando um espaço de resistência cultural que ainda reverbera hoje na sonoridade nacional", analisa. Anitta aparece em meio à natureza nas imagens do vídeo-teaser em que revela os nomes das faixas do álbum 'Equilibrium' Reprodução / Vídeo 'X' Anitta Ainda segundo ela, estimativas apontam mais de mil canções na MPB com referências diretas a orixás e entidades, em obras de nomes como Jorge Ben Jor, Clara Nunes, Alcione e o grupo Racionais MC's. Anitta frequenta terreiros desde a infância, por influência do pai. Divulgação Sob essa perspectiva, o trabalho de Anitta é visto pela pesquisadora também como um gesto político. "Ter uma artista com esse nível de visibilidade trazendo pontos de macumba e saberes vitais ancestrais para suas canções ajuda na preservação da nossa própria existência", finaliza. Anitta: relembre a relação da cantora com o candomblé e a espiritualidade De 'Show das Poderosas' a mantras budistas Para Thiago Soares, professor do departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em cultura pop, o mergulho espiritual de Anitta a coloca em uma prateleira ocupada por gigantes. "Os Beatles tiveram sua era mística com o budismo em 'Sgt. Pepper's'; o Brasil viu o Tim Maia Racional e a Madonna nos presenteou com as referências hindus de 'Ray of Light'", compara. Segundo ele, recorrer à espiritualidade após o álbum "Funk Generation" (2024), marcado por críticas à sexualização da cantora, funciona como uma "mudança de eixo" estratégica no debate público. Embora Anitta não se identifique como uma mulher negra, o professor observa que ela assume um papel de mediadora cultural abrindo novos debates ao pautar estéticas, costumes e crenças de religiões de matriz africana. Um pouco de Pai Nosso, um pouco de sete ondinhas... Para o historiador Filipe Domingues, especialista em História das Religiões, o álbum funciona como uma tradução da formação espiritual do Brasil. Anitta em imagens de 'Equilibrivm', disco lançado na última quinta (16) Divulgação Ele explica que o sincretismo nacional não foi apenas um "disfarce" usado por escravizados e indígenas para professar sua fé durante a colonização, mas um processo de negociação simbólica e sobrevivência cultural. "Ao reunir referências afro-brasileiras e indígenas, Anitta recoloca em cena a pluralidade que marcou historicamente a experiência do sagrado no país", afirma o professor. A convivência entre o sagrado e o profano, tão presente nas letras, looks, clipes e capas da nova era da cantora, é outra característica histórica destacada por Domingues. Segundo ele, desde o período colonial, o catolicismo barroco brasileiro já valorizava procissões e expressões públicas de fé, algo que se intensificou com a contribuição dos povos africanos e originários. "Nesses contextos, o corpo, a música e a dança também são formas legítimas de vivência do sagrado. No Brasil, a festa não é o oposto da religião, mas uma das suas linguagens", explica. Anitta em imagens de 'Equilibrivm', disco lançado nesta quinta (16) Divulgação

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/noticia/2026/04/21/equilibrivm-as-referencias-religiosas-do-novo-album-de-anitta-e-o-que-elas-dizem-sobre-o-brasil.ghtml


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