Pescador encontra desenhos rupestres em pedras durante expedição de caiaque no Sul de Roraima

  • 11/02/2026
(Foto: Reprodução)
Pescador encontra desenhos rupestres em pedras durante expedição de caiaque Era pra ser uma viagem de caiaque pelo rio Jatapu, mas acabou virando uma "viagem no tempo" pelas águas durante excursão em Caroebe, no Sul de Roraima. O pescador esportivo Marcell Reis, 33 anos, encontrou ao menos 30 desenhos rupestres gravados em pedras. Os registros podem datar até 3 mil anos antes de Cristo, conforme um pesquisador ouvido pelo g1. Os desenhos aparecem após 70 quilômetros de descida no rio, saindo de Caroebe. As gravuras foram encontradas em pedras nas margens e distribuídos em diferentes trechos, de acordo com o pescador. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 RR no WhatsApp Marcell, que também é bombeiro militar, disse que começou a ver os desenhos rupestres depois de uma semana da expedição que durou nove dias em janeiro. No trajeto, ele estava com a esposa e percorreu áreas isoladas do rio, próximas à nascente. “Você encontra um ponto com desenhos, sobe uns 20 quilômetros e encontra outro, depois mais uns 30 quilômetros, tem mais. São muitos desenhos, vi cerca de sete desenhos em um local só, mas em outros pontos encontrei mais de 20. É como se fosse uma viagem no tempo”, contou o pescador ao g1. Desenho rupestre encontrado por Marcell Reis no Sul de Roraima Arquivo Pessoal/Marcell Reis LEIA MAIS: Pesquisa da USP encontra em RR primeiro sítio arqueológico do Brasil com sinais de granito lascado Pesquisa inédita descobre pegadas de dinossauros de mais de 100 milhões de anos na Amazônia Ao se deparar com as pedras, Marcell fez vários registros em fotos e vídeos. Um deles, em que aparenta ser um sol, acumula mais de mil compartilhamentos nas redes sociais (Veja o vídeo acima). O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) informou que os desenhos encontrados por Marcell não fazem parte de nenhum sítio arqueológico registrado pelo órgão, o que levanta a possibilidade de que esse seja o primeiro sítio arqueológico identificado em Caroebe. 'Mais de um estilo rupestre' O g1 pediu para Francisco de Paula Brito, professor de história da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e mestre em arqueologia pela Universidade de Pernambuco (UPE), analisar as imagens. Inicialmente, ele pontuou que é necessário um estudo aprofundado para saber quando os desenhos foram feitos. Pelos registros, o pesquisador notou diversos estilos de desenhos diferentes, o que pode sugerir que vários povos passaram pelo rio e deixaram suas marcas. Um dos estilos notados foi o chamado Aishalton, que mostra figuras de animais, plantas e humanos e encontrado em povos milenares. "A partir da análise dos traços, da técnica utilizada e da comparação com outros registros já estudados na Amazônia e na região das Guianas, é possível estimar que essas gravuras tenham sido feitas há cerca de 3 mil anos ante de Cristo", afirmou. O pesquisador também identificou mais um estilo rupestre. "Um deles está associado à tradição amazônica, comum em regiões como o rio Negro. Outro apresenta características semelhantes a registros encontrados na Guiana”, disse. 🪨 Desenhos espalhados por quilômetros de rio Formas curvilíneas encontradas por Marcell Reis em possível sítio arqueológico no Sul de Roraima Arquivo Pessoal/Marcell Reis Marcell e a esposa costumam fazer com frequência esse tipo de travessia. Ele diz que os desenhos não são facilmente perceptíveis. "Se você passa direto pelo rio, não vê. Tem muita pedra. É preciso olhar com atenção, procurar mesmo. Não é algo óbvio", afirmou. Para o pescador, encontrar os desenhos foi um dos momentos mais marcantes das viagens. “É uma sensação difícil de explicar. Você começa a pensar quem passou por ali, quando foi, o que aquilo significava. A gente percebe que ainda falta muita informação sobre esses registros, e isso deixa tudo ainda mais impressionante”, relatou. Ele disse ainda que a aventura foi desafiadora. A floresta amazônica fechada, as corredeiras do rio e os obstáculos encontrados no caminho marcaram a expedição. Mas para ele, tudo valeu a pena ao encontrar locais como a margem onde os desenhos estão. "É um ambiente selvagem, com arraia, cobra, peixe-elétrico. É uma expedição pesada mesmo. Mas é incrível. É isso que eu gosto de fazer”, contou. Desenhos com vários estilos Embora não seja possível identificar exatamente quem produziu as gravuras, o pesquisador Francisco explica que elas provavelmente foram feitas por populações ancestrais dos povos indígenas que historicamente ocuparam a região, como os Wai Wai. “Esses povos se deslocavam pelos rios, trocavam objetos e mantinham contato entre áreas que hoje fazem parte do Brasil e das Guianas. Os desenhos refletem essa ocupação antiga e essa circulação milenar”, afirmou. Segundo o pesquisador, a estimativa se baseia na comparação dos traços, das técnicas utilizadas e dos estilos identificados em outros sítios arqueológicos da Amazônia e da região das Guianas. Algumas das pedras apresentam inclusive polidores, marcas usadas por povos antigos para afiar ou polir instrumentos de pedra, como machadinhas. “É possível ver os polidores na parte superior da rocha e as gravuras na lateral, o que torna o sítio ainda mais interessante do ponto de vista arqueológico”, disse. O Iphan informou que todo vestígio arqueológico é automaticamente protegido por lei, mesmo que ainda não esteja cadastrado oficialmente. Além disso, orientou que qualquer achado arqueológico deve ser fotografado (sem flash), mantido no local e comunicado ao instituto, com o maior número possível de informações sobre a localização, para que sejam adotadas medidas de proteção e preservação. “O mais importante é não mexer em nada. É registrar, comunicar e deixar que isso seja estudado. Esses desenhos fazem parte da história de todo mundo e é muito legal de conhecer”, concluiu. Veja mais fotos das gravuras rupestres Umas das pedras encontradas por Marcell Reis com desenhos rupestres Arquivo Pessoal/Marcell Reis Desenho circular encontrado por Marcell Reis Arquivo Pessoal/Marcell Reis Um dos desenhos encontrados por Marcell Reis no rio Jatapú Arquivo Pessoal/Marcell Reis Leia outras notícias do estado no g1 Roraima.

FONTE: https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2026/02/11/pescador-encontra-desenhos-rupestres-em-pedras-durante-expedicao-de-caiaque-no-sul-de-roraima.ghtml


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