PM não enviou imagens de 40 % das câmeras corporais solicitadas pela Defensoria Pública do RJ

  • 18/03/2026
(Foto: Reprodução)
PM não enviou imagens de 40 % das câmeras corporais solicitadas pela Defensoria Pública do RJ As câmeras corporais dos três policiais militares envolvidos na ação que terminou com a morte da médica Andréa Marins Dias estavam descarregadas e não registraram a ocorrência. No ano passado, a Defensoria Pública fez 2,5 mil solicitações de acesso às imagens dessas câmeras, mas apenas 1,5 mil foram atendidas. Segundo o órgão, 40% dos pedidos não tiveram resposta. Em pelo menos 337 casos, a Polícia Militar alegou que os vídeos das câmeras corporais tinham sido perdidos, o que representa 13,4% do total. “Eu acho que é um número preocupante porque são 300 casos, 300 vidas que estão sendo julgadas num processo criminal no qual merecem algum esclarecimento, e se a gente tem o equipamento é para ele ser utilizado”, afirmou o defensor Pedro Paulo Gouvêa de Souza. PMs envolvidos em morte de médica estavam com câmeras corporais descarregadas A lei que obriga o uso de câmeras corporais pelos policiais no Estado foi sancionada em junho de 2021, depois de uma operação na favela do Jacarezinho que terminou com 28 mortos. Em maio de 2022, os policiais militares começaram a usar os equipamentos, depois de uma decisão do Supremo Tribunal Federal que determinou que toda ação policial no estado do Rio de Janeiro deve ser gravada por câmeras corporais. O Batalhão de Operações Especiais (Bope) só começou a usar em 2024. Atualmente, mais de 13 mil câmeras corporais são usadas pelos policiais militares em patrulhamento no Estado. A PM afirma que os critérios de utilização das câmeras é rígido e investiga internamente o caso envolvendo a médica Andréa Marins. "Primeiro eu quero lamentar, dizer que temos protocolos rígidos de atuação das câmeras. Todo e qualquer desvio de conduta será apurado, as apurações estão em fase ainda inicial. A corregedoria vem acompanhando e desenvolvendo uma apuração interna. Traremos a verdade para toda a população", afirmou o secretário de Polícia Militar, Marcelo de Menezes, em coletiva nesta quarta-feira (18). Condenações graças às câmeras Foi o uso dessas câmeras que ajudou, por exemplo, a contar o que aconteceu no dia 10 de novembro de 2024 quando o motorista de aplicativo Bruno Patrocínio foi baleado por policiais militares. As imagens das câmeras foram exibidas no RJ1 e mostraram que os PMs estavam perdidos durante uma perseguição, sem saber que carro seguir. Bruno foi atingido quatro vezes na região do abdômen. Os PMs foram afastados das ruas só depois da exibição da reportagem, quase um ano depois do caso. As imagens das câmeras também foram decisivas para o Ministério Público denunciar, no começo de março, 10 policiais militares por invadirem residências durante a megaoperação no Complexo do Alemão, em outubro do ano passado. MPRJ denuncia PMs por invadir e arrombar casas durante megaoperação no Alemão Um vídeo mostrou um dos PMs usando uma ferramenta que abre portas sem a chave original. Segundo a denúncia, um dos policiais furta um aparelho celular da casa da moradora. Ainda segundo o MPRJ, pelo menos cinco dos 10 PMs envolvidos no caso impediram que o trabalho deles fosse registrado durante a operação tampando a lente ou retirando a câmera do uniforme. A corregedoria da Polícia Militar investigou mais de 5,4 mil casos de mau uso de câmeras corporais nas fardas dos agentes entre janeiro de 2024 e setembro de 2025. No mesmo período, 882 policiais foram punidos administrativamente pelo uso inadequado das câmeras ou por flagrante de abuso durante abordagens. "É necessário um ajuste do ponto de vista do comportamento dos profissionais, e para isso é necessário que as autoridades façam essas fiscalizações, prevejam como vai ser o melhor funcionamento no momento atual", afirmou o professor do departamento de Segurança Pública da UFF, Lenin Pires. Caso da médica A médica Andréa Marins Dias, de 61 anos, foi morta no domingo (15), durante uma uma suposta perseguição em Cascadura, na Zona Norte do Rio. As imagens seriam fundamentais para esclarecer se os agentes confundiram o carro da médica com o de criminosos e atiraram contra uma inocente. O caso é investigado pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC). No início da noite de domingo, moradores relataram ter ouvido tiros. Um deles gravou imagens que mostram um carro branco com marcas de disparos no para-brisa. A Polícia Militar informou que também havia marcas na parte traseira do veículo. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça A médica Andréa Marins Dias Reprodução/TV Globo Nas imagens, um policial dá ordens por cerca de um minuto: "Desce do carro. Desce ou vai morrer". Sem resposta, ele bate com o fuzil na janela e repete: "Desce do carro, desce". Segundo a investigação, a médica já estava morta. Ela havia acabado de sair da casa dos pais. O comando da Polícia Militar confirmou que os três agentes — que foram afastados do patrulhamento — usavam câmeras corporais, mas os equipamentos estavam sem bateria. As imagens, consideradas decisivas para esclarecer a dinâmica do caso, não foram registradas. As armas utilizadas na ação foram apreendidas para perícia. A médica Andréa Marins Dias Reprodução Em nota, a PM afirmou que o caso é apurado e que há normas rígidas que determinam que policiais devem retornar à unidade ao identificar falhas ou mau funcionamento nas câmeras para substituição dos equipamentos (veja a nota completa ao fim da reportagem). O Instituto Fogo Cruzado informou que Cascadura foi o bairro da Região Metropolitana com mais registros de tiroteios em 2025, com 126 ocorrências. Em 2026, até o momento, já foram contabilizados 18 casos. LEIA TAMBÉM: Ministério da Igualdade Racial cobra investigação e uso de câmeras de PMs O que se sabe sobre morte de médica atingida por tiros durante suposta perseguição Despedida reservada Parentes e amigos se despedem da médica Andréa Marins Reprodução/TV Globo O enterro de Andréa ocorreu nesta tarde no Cemitério da Penitência, na Zona Norte, e foi reservado a parentes e amigos. O pai de 88 anos e a mãe de 91, que ela havia visitado pouco antes de ser morta, chegaram ao cemitério muito abalados, acompanhados da filha dela. Um médico amigo da vítima falou em nome dos presentes. “Esclarecimento é necessário, até porque se houve um erro, se o erro não for corrigido, ele continua acontecendo”, disse Armando Novais. “Foi uma catástrofe. Difícil, né? Uma pessoa muito viva, ela tinha muita energia, uma pessoa que trazia luz pra onde ela estava.” Parentes e amigos se despedem de médica morta a tiros em perseguição no Rio Evandro Cardoso/TV Globo “Uma pessoa que veio da luta, veio de baixo, ela batalhou, se formou. Naquela época, uma mulher negra, buscando, cirurgiã, então ela enfrentou muita coisa”, acrescentou. Andréa era cirurgiã oncológica especializada no tratamento de endometriose. Ela tinha quase 30 anos de experiência na área de saúde da mulher. Em seu perfil nas redes sociais, dizia ter duas residências: uma geral, do ciclo básico de qualquer médico, e outra em cirurgia oncológica, para o tratamento de câncer. Andréa Marins Dias era cirurgiã oncológica e especialista em endometriose Reprodução/TV Globo Nota da PM "A Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar informa que, de acordo com as análises preliminares dos setores técnicos da Corporação, foi identificado que as baterias das câmeras corporais utilizadas pela equipe estavam descarregadas no momento da ocorrência. Todos esses fatos seguem sob apuração integral da área correcional da SEPM. Vale ressaltar que na corporação existem normas rígidas que determinam que os policiais, ao perceberem que há qualquer tipo de falha ou mau funcionamento das câmeras, devem regressar à unidade de origem para substituição dos equipamentos. Os policiais seguem afastados dos serviços nas ruas."

FONTE: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/03/18/pm-imagens-cameras-corporais-pedidas-defensoria.ghtml


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